sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cerca de 25% dos portadores de bipolaridade tentam suicídio

Cerca de 25% dos portadores de bipolaridade tentam suicídio


Sociedade Brasileira de Psiquiatria chama a atenção para diagnóstico precoce
Raquel Valli
raquel.valli@rac.com.br





A Associação Brasileira de Psiquiatria, organização sem fins lucrativos que representa os psiquiatras brasileiros, está lançando uma campanha nacional de alerta sobre transtorno bipolar - síndrome cujo índice de tentativa de suicídio entre os doentes é de 25%. Destes, cerca de 4% suicidam-se de fato. Entretanto, a quantidade de tentativas cai para cerca de 10% entre os que são tratados.

Por isso, a ABP quer incentivar o diagnóstico precoce - que hoje pode demorar mais de 10 anos por confundir-se com sinais de outras doenças.

A bipolaridade é um dos três distúrbios mentais mais comuns (os outros são esquizofrenia e depressão) e é a sexta principal causa de falta ao trabalho.

O transtorno

Manifesta-se principalmente (cerca de 60%) a partir da adolescência (entre 15 e 19 anos), apesar de ocorrer em qualquer idade. Afeta de 3% a 8% da população, alternando o comportamento do paciente em fases de hiperexcitabilidade (agitação) com fases de profunda tristeza (depressão).

A doença é crônica, como o diabetes e a hipertensão arterial, mas, assim como ambas, também pode ser controlada.

Principais sintomas

• Sentimento de êxtase, júbilo
• Irritação e agitação
• Pensamento e fala rápida
• Distrair-se facilmente
• Desejo de envolver-se em vários projetos ao mesmo tempo
• Insônia ou pouca necessidade de sono
• Comportamento impulsivo e de risco, como sexo por impulso e sem proteção
• Julgamento prejudicado
• Agressividade e hostilidade

A campanha

Faz parte de um programa de educação continuada da ABP contra o estigma e preconceito em relação a pacientes com transtornos mentais. Inclui a distribuição de material educativo para pacientes e familiares e programa de educação médica continuada.

"Temos que identificar e tratar pessoas com transtorno bipolar, para que tenham uma vida normal e produtiva. Isto significa não apenas tratar o paciente adequadamente, mas também combater o estigma e preconceito contra as pessoas portadoras de transtornos que afetam a mente, e reintegrá-los à sociedade”, afirma Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

A ABP conta também com o apoio das sociedades regionais de psiquiatria e irá distribuir material educativo em hospitais e centros médicos, tanto para profissionais de saúde, quanto para pacientes e seus familiares.
A cada ano, a associação organiza o Congresso Brasileiro de Psiquiatria – o maior evento brasileiro e da América Latina (e o terceiro maior do mundo) da especialidade. Mais informações podem ser obtidas pelo www.abp.org.br

FONTE: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2012/11/capa/nacional/leia_mais/10361-cerca-de-25-dos-portadores-de-bipolaridade-tentam-suicidio.html

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Novo CP: Associação Brasileira de Psiquiatria quer criminalizar Psicofobia

Novo CP: Associação Brasileira de Psiquiatria quer criminalizar Psicofobia


A possibilidade de criminalização da Psicofobia no Novo Código Penal foi tema de uma audiência do senador Pedro Taques (PDT-MT) com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), na manhã do dia 07.11. O mato-grossense, relator da Comissão que estuda a reforma a legislação penal, recebeu contribuições da entidade que pretende tornar crime, inclusive com a possibilidade de prisão, a prática preconceituosa contra pessoas que apresentam algum tipo de transtorno mental ou problema psicológico.

"Precisamos desenvolver melhor o tema. Gostaria de uma contribuição da Associação com argumentos, além de números que justifiquem a tipificação penal. É uma questão sensível que pode receber tratamento na nova legislação, por meio de emendas", afirmou o senador Pedro Taques.

Dados do Ministério da Saúde apontam que pelo menos 46 milhões de brasileiros têm problemas mentais ou psicológicos, o equivalente a aproximadamente 25% da população."O dado é alarmante e precisa de análise e comprometimento das autoridades, médicos e entidades para promover uma política de saúde pública eficiente”, avalia o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP.

De acordo com levantamentos da entidade, "graças ao preconceito”, muitos brasileiros acabam se drogando, recorrendo a todo tipo de intervenção, mas não recebem tratamento em consultório psiquiátrico. Para a ABP, a inserção de uma nova tipificação penal pode trazer um caráter didático na cultura brasileira, estimulando as pessoas a buscar diagnóstico e tratamento.

A audiência com o senador Pedro Taques foi acompanhada pelo senador Paulo Davim (PV-RN) que se comprometeu a propor à Comissão Especial que analisa o novo Código Penal uma emenda que integrará a Psicofobia no mesmo capítulo que trata o racismo e preconceito de gênero.

Uma nova audiência deve acontecer para que a ABP e o senador Paulo Davim entreguem suas contribuições em forma de emendas ao relator.

Assessoria
FONTE: http://www.pedrotaquesmt.com.br/noticias/novo-cp-associacao-brasileira-de-psiquiatria-quer-criminalizar-psicofobia

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Entenda o que é o transtorno bipolar, doença que atinge até 8% da população



Entenda o que é o transtorno bipolar, doença que atinge até 8% da população
Entrevista com Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. Entenda o que é o transtorno bipolar, doença que atinge até 8% da população Entrevista com Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.
Ouça:  http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/ciencia-saude/2012/11/11/ENTENDA-O-QUE-E-O-TRANSTORNO-BIPOLAR-DOENCA-QUE-ATINGE-ATE-8-DA-POPULACAO.htm

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A droga, todos e qualquer um

Debate em torno da “internação compulsória” pode esconder desejo higienista e eugênico de isolar os dependentes, terceirizando um problema que bate à nossa porta


Como dizem os portugueses, trata-se de uma “conversa em tranças”. Pesquisa recente do Instituto Datafolha identificou que 90% dos brasileiros aprovam a internação compulsória dos dependentes de crack. A aprovação decai na medida em que os entrevistados têm mais escolaridade e/ou renda, ou se moram mais ao Sudeste e Sul do país. Mas, ainda assim, é bastante alta a simpatia com a hospitalização de dependentes químicos – à revelia da vontade deles.

Tudo indica que se trata menos de um consenso social e mais de uma desinformação sobre os meandros da drogadição, pouco compreendida como doença e ainda alardeada como vício, logo sujeita à força de vontade. O movimento social, a propósito, anda em estado de alerta, soltando o verbo contra os governos e prefeituras brasileiras que adotam a internação compulsória. Os casos mais notáveis são o Rio de Janeiro e São Paulo. Mas é possível encontrar, em uma cidade como Curitiba, a defesa apaixonada de que as ambulâncias entrem em ação.

Os argumentos são bem intencionados. O crack tem poder tal sobre as pessoas que não se pode contar com sua consciência. Esperar que os dependentes decidam por tratamento equivaleria a assistir, calado, a um suicídio. Em entrevista à Gazeta do Povo, inclusive, o promotor de Justiça da área da infância Murilo Digiácomo lembrou que não haveria no Estatuto da Criança e do Adolescente nada em contrário à internação – desde que seja o caso extremo. O estatuto costuma ser usado como argumento para reprovar a hospitalização compulsória de pessoas com menos de 18 anos.

A fala de Digiácomo é irretocável, pois se escora na “proteção integral”. O problema, contudo, permanece “em tranças”. Requer-se estrutura adequada para esse tipo de ação – órgãos de direitos humanos já identificaram que alguns centros de amparo se assemelham a depósitos, nos quais a presença de psiquiatras e profissionais especializados é frágil como a casca de um ovo. Outro perigo latente é que os arrastões para identificar e levar dependentes ganhem um caráter eugenista e higienista, como alertou o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva.

Sabe-se do incômodo da população diante das legiões de drogaditos em situação de rua, marcados pela mendicância, cruzando, errantes, as cidades. Não poucos desejam a ação zás-trás do poder público, “limpando” os espaços urbanos dessa paisagem “qual o inferno de Dante”. Há quem os tema, associando a violência ao uso da droga, o que não é uma relação tão imediata assim, já que é o tráfico – inclusive o que acontece nos escritórios da droga – o propagador do crime.

A alegação de “higienismo” não deve ser descartada, em absoluto. Rejeitá-la equivaleria a desconhecer o impacto de drogas como o crack e sua complexidade em graus nunca vistos. A sociedade, em miúdos, está diante de um problema novo, que não é passível de ser solucionado de maneira imediata. Do contrário, em nome do avanço o que se promove é uma regressão aos tempos anteriores à luta antimanicomial. Foi graças a ela que os hospitais psiquiáticos passaram por reformas e que os Centros de Assistência Psicossocial se tornaram uma política de governo. O mesmo se diga dos hospitais-dia, entre outras terapias com até 25% de êxito. Não é índice desprezível. Nem é tudo.

Em meio ao debate público da internação compulsória é importante não perder de vista que a drogadição não é problema só do Estado. Nem apenas dos desafortunados que conhecem a dependência e suas famílias. Trata-se de uma epidemia, que já não escolhe esse ou aquele. A mesma sociedade chamada a se organizar para discutir e coibir a violência e a pobreza é aquela que precisa arregaçar as mangas para que tantas vidas não sejam interrompidas pelas drogas. Não se trata mais de clichê, mas de uma realidade que bate à porta. Estamos vulneráveis. A comoção nacional em torno do ex-modelo Rafael Nunes, até há pouco vivendo nas ruas de Curitiba, chamou atenção para a proximidade da droga. De todos e de qualquer um.

FONTE:  Jornal GAZETAN DO POVO - OPINIÃO
http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1314873&tit=A-droga-todos-e-qualquer-um

sábado, 3 de novembro de 2012

Artistas fazem campanha contra a Psicofobia

De acordo com o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP, hoje mais de 40 milhões de pessoas sofrem de algum distúrbio psíquico, e graças ao preconceito muitos acabam se drogando, recorrendo a todo tipo de intervenção, mas não passam num consultório psiquiátrico, com receio de se tornarem vítimas de preconceito.

”De verdade, quem sofre de algum transtorno psiquiátrico merece o mesmo respeito que um diabético ou portador de qualquer outra doença crônica, não tem sentido a pessoa ser discriminada”, diz o médico. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 25% da população é portadora de alguma patologia psiquiátrica. “O dado é alarmante e precisa de análise e comprometimento das autoridades, médicos e entidades para promover uma política de saúde pública eficiente”, sugere Silva.

O fato é que o preconceito existe, e muitas pessoas estão sem receber tratamento para evitar este estigma. A despeito de hoje já existir inúmeras novidades no tratamento de doenças como bipolaridade, esquizofrenia, síndrome de pânico e outros problemas mais frequentes, como ansiedade generalizada e transtorno obsessivo compulsivo.

Celebridades relatam experiências

O motivo da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) convidar artistas para participar de campanhas de conscientização é derrubar preconceitos. Maurício Mattar, por exemplo, conta que há um ano está em tratamento contra o transtorno bipolar e, hoje, se considera uma pessoa feliz.

“Vivia entre altos e baixos e não sabia que sofria de oscilação de humor. Era uma pessoa tão instável que o fato de odiar o calor me tornava irracional, arrumava brigas homéricas, no meio das gravações, enfim, era um chato, que não sabia que era doente.

Busquei todo tipo de ajuda, no budismo, na meditação e outros lugares que, claro, me ajudaram, mas, me equilibrar de fato, só a medicação mesmo”, diz. O mesmo relata o locutor Luciano do Valle, que viveu uma de suas piores experiências , quando estava na África do Sul, às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 2010. Com quadros depressivos, síndrome do pânico e bipolaridade, não conseguia trabalhar.

A crise quase o fez desistir da profissão. Ele conta que só mesmo a ajuda psicotera-pêutica e as medicações lhe devolveram o equilíbrio mental. Tanto que acaba de escrever um livro book com depoimento de 50 pessoas que fizeram ou fazem parte do cenário esportivo, e com quem ele cruzou ao longo de sua carreira. O locutor se empenha junto com a ABP para inserir nos quadros esportivos a obrigatoriedade de acompanhamento psiquiátrico para jogadores de futebol.

”Assim como tem preparador físico, nutricionista e outros profissionais, os times precisam, também, de acompanhamento com psiquiatra”, afirma.

Por sua vez, a atriz Luciana Vendramini recorreu a caminhadas, à acupuntura e até mesmo à sua irmã, com quem convivia na época em que foi vítima de um surto de transtorno obsessivo compulsivo, quando chegou a precisar de 24 horas do dia para realizar apenas três tarefas: tomar banho, levantar e dormir.

”Eram horas para conseguir sair do quarto, outras tantas horas para concluir o ritual do banho, e outras tantas para contar um xis de táxis, antes de finalmente conseguir me deitar”, diz. A atriz, que começou cedo sua carreira, não imaginava que sua doença era tão séria, e mesmo lendo tudo que podia sobre o assunto passou pela difícil fase da negação, dela e de sua família, com relação à doença.

Mas ainda hoje enfrenta o problema com relação aos colegas de trabalho. “É difícil aceitar o que não se entende. Por isso, temos que tornar as pessoas mais conscientes destas doenças”, diz. Para contribuir com a campanha, Luciana está escrevendo um livro, em parceria com o psiquiatra Antonio Silva, que deverá ser lançado até o final do ano.

Psicofobia é crime, diz presidente

Na visão do presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, o programa “Sociedade contra o Preconceito”, que na verdade foi deflagrado no ano passado, com a presença de personalidades como Cássia Kiss e Chico Anysio, durante congresso no Rio de Janeiro, está ganhando as ruas e os noticiários.

Já está no Senado uma discussão que pretende imputar a psicofobia como crime: aquele que discriminar um portador de doença psiquiátrica.

Além disso, há também discussões científicas fundamentando toda a problemática. O psiquiatra afirma que basta que a ideia seja disseminada e que todos se unam para que se puna a psicofobia da mesma forma como hoje ocorre com a homofobia, o racismo e outras situações que envolvem discriminação. “Somente juntos poderemos desmistificar e acabar de vez com o que é dito e pensado de forma errônea sobre os portadores de transtornos e deficiências mentais”, diz.

O senador Paulo Davim (PV) reconhece que os números apresentados são alarmantes e é preciso agir rápido para evitar que o preconceito contra portadores de transtornos e deficiências mentais se torne mais um problema de direitos humanos. Ele diz que o momento é oportuno para apresentar emenda criminalizando a psicofobia, mas ressalta que a luta ainda está no início. “Os doentes mentais têm direito a ser tratados com respeito e a hora é agora, com a análise do anteprojeto do Código Penal. Se a homofobia é considerada crime de racismo, a psicofobia também precisa ser criminalizada”, diz.

Quem faz coro ao psiquiatra é o médico argentino Jorge Luis Pellegrini, um dos convidados internacionais para o Congresso Internacional de Acompanhamento Terapêutico, que acontece em São Paulo entre os dias 15 e 17 de novembro. Ele participa de debates sobre a prática de tratamento humanizado a pacientes em sofrimento psíquico e afirma que “é preciso parar de pensar em doença mental como um processo que fatalmente conduz à cronicidade”.

Para o psiquiatra, “com o desenvolvimento das técnicas no campo da psicoterapia, psicofarmacologia, expressão corporal, psicodrama, terapia de grupo e tudo o que foi desenvolvido na Argentina, por exemplo, e em várias partes do mundo, é absolutamente insustentável que haja internações que durem mais de 20 dias.”

Sua proposta é ir às ruas, onde as doenças se produzem. Pelegrini recebeu, em 2005, o Prêmio Mundial de Psiquiatria por sua atuação, ao longo de toda a vida, em defesa dos direitos humanos em psiquiatria. Ele próprio foi vítima da violação desses direitos durante a ditadura argentina militar, quando foi preso e excluído da universidade e do hospital onde trabalhava.
FONTE: http://www.fmdiario.com.br/Noticias/Saude/115163,,Artistas+fazem+campanha+contra+a+Psicofobia+.aspx

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Depressão Diagnóstico Tratamento pelo Clínico

Depressão diagnóstico tratamento pelo clínico
Autores: Fabiano Coelho Horimoto – Danusa Céspedes Guizzo Ayache – Juberty Antônio de Souza

Sobre o livro

A depressão é um problema de saúde crescente em todo o mundo. Uma em cada vinte pessoas é acometida por um episódio depressivo grave ao longo da vida e esse transtorno incide em grupos cada vez mais jovens da população. A depressão aumenta o tempo de internação, a morbidade no pós-operatório e a mortalidade.

Atualmente, os antidepressivos ocupam, no mercado nacional, o quarto lugar em volume de vendas. Com o advento de novas drogas, a prescrição de antidepressivos cresceu de modo significativo. Porém, alguns clínicos desconhecem aspectos importantes, como interações medicamentosas e efeitos colaterais, e optam por não tratar o paciente preferindo encaminhá-lo a um psiquiatra.

Orientar esses colegas não-psiquiatras é o objetivo maior de Depressão: Diagnóstico e Tratamento pelo Clínico , que abrange conceitos gerais sobre depressão, proporcionando um conhecimento mais sólido e a instrumentação desses no que se refere à utilização dos psicofármacos, com base nos mais recentes avanços nessa área.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Rio quer internar adultos viciados à força

Rio quer internar adultos viciados à força


Para prefeito da cidade, está claro que usuários de crack `não conseguem tomar decisões`; plano sairá em duas semanas

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), afirmou ontem que vai adotar a internação compulsória até para adultos dependentes químicos. Segundo ele, a medida será iniciada ``em breve``.

Autorizada por decisão judicial no Rio, a internação compulsória de jovens usuários de crack já é questionada pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP-RJ), que aponta ``regresso à lógica manicomial`` em abrigos mantidos pela prefeitura na zona oeste da cidade.

Paes não explicou como tornará possível a decisão. Segundo ele, as Secretarias de Saúde e Assistência Social vão apresentar em até duas semanas um plano para criação de 600 vagas para internação e tratamento de dependentes químicos.

``Vamos criar uma estrutura própria, se possível ainda neste ano, de forma emergencial. A partir da construção dessa estrutura, vamos iniciar a internação compulsória de adultos também. Está muito claro que os dependentes dessa droga não conseguem tomar decisões``, disse o prefeito.

Atualmente, há 178 vagas para internação compulsória de crianças e adolescentes no Rio. A decisão do prefeito foi anunciada depois de reunião com representantes de associações de moradores dos Complexos de Jacarezinho e Manguinhos, favelas ocupadas por forças de segurança desde o dia 14.

Uma semana depois da operação, 240 usuários tinham sido levados para abrigos da prefeitura - 224 eram adultos. A ocupação policial provocou uma migração de dependentes químicos para outras áreas do entorno, incluindo canteiros de obras em viadutos da Avenida Brasil.

Debate. Paes disse que o município vai investir R$ 220 milhões em projetos para a região. ``Não vou ficar no debate ideológico. Nossa obrigação é salvar vidas``, afirmou o prefeito.

Entrevista

`Louvável`, mas exige cuidados, diz psiquiatra

Para o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antonio Geraldo da Silva, a decisão do prefeito do Rio de abrir vagas para o tratamento compulsório de usuários de crack é ``louvável``, mas a internação só deve ser feita com a indicação de um psiquiatra, sob risco de virar ``eugenia``.

A decisão é adequada?

É louvável que um grande município resolva fazer alguma coisa, porque por enquanto estamos cometendo omissão de socorro e suicídio assistido. O prefeito está certo em querer ajudar. O que não pode haver é internação compulsória sem indicação médica. Não podemos banalizar, senão vira eugenia social.

É uma medida efetiva?

Sim, tem bastante efetividade, quase no mesmo nível da internação voluntária. Mas para isso tem que ser em um serviço que tenha qualidade e respeite as necessidades específicas de cada paciente. Não se pode confundir internação com isolamento social ou prisão.

Quais características que o local de internação deve ter?

Deve contar com equipe multidisciplinar, psiquiatras e outros profissionais. Tem que ser um local especializado, sob pena de se fazer de forma incorreta.

Entrevista

Decisão de Paes é `higienista`, afirma psicóloga

Para a presidente do Conselho Regional de Psicologia no Rio, Vivian Fraga, a decisão de internar compulsoriamente usuários de crack tem caráter ``higienista``.

A decisão é adequada?

É uma decisão política, não técnica. Há mais de um ano que estão internando crianças e adolescentes e a secretaria de Assistência Social não tem dados sobre a efetividade disso. Muitos saem dos abrigos e continuam usando drogas.

Por quê? Quais os problemas da política atual?

Desde 2011 temos feito fiscalizações nos abrigos e o que vimos é que não atendem o que a política pública preconiza. Eles têm uma lógica higienista. Pegam a pessoa em Manguinhos [zona norte] e colocam lá em Santa Cruz [zona oeste].

Isso afasta o convívio da família, que é importante. E é uma lógica medicamentosa. Não é feito nenhum trabalho para mudar a relação da pessoa com a droga.

Como tratar, então?

A gente propõe que a porta de entrada sejam os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), e que, nos momentos de crise, a pessoa seja internada num hospital até se estabilizar. A ideia é que seja tratado por um profissional no seu território.

Saiba mais

No país, 90% aprovam a internação

Pesquisa Datafolha realizada em janeiro apontou que 90% dos brasileiros aprovavam a internação involuntária de dependentes de crack. O percentual cai entre os moradores do Sul (86%), os que têm ensino superior (84%) ou renda acima de dez mínimos (79%). Foram ouvidas 2.575 pessoas em 159 cidades.

Ação na cracolândia de São Paulo teve 1.176 internações voluntárias

Balanço do governo de SP aponta que, na operação da cracolândia, no centro da capital, realizada no início do ano, houve 1.176 internações, mas todas foram voluntárias.

Segundo o coordenador estadual de políticas sobre drogas, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, só há internação sem a concordância do usuário de drogas quando há laudo médico (internação involuntária) ou decisão judicial (internação compulsória).

Ou seja, não cabe à prefeitura ou ao Estado decidir, diretamente, se o usuário deverá ser internado, conforme prevê lei federal de 2001.

``Além disso, todos os indivíduos toparam a internação, ou seja, foi voluntária``, afirmou o coordenador estadual.

A operação na cracolândia envolve Estado e prefeitura, em ações policiais e de saúde.

Oliveira afirma que já houve internações voluntárias ou compulsórias no Estado, fora da operação da cracolândia.

CRÍTICAS

No início da operação no centro de São Paulo, quando se levantou a possibilidade de haver internações compulsórias, o candidato à prefeitura pelo PT, Fernando Haddad, criticou a ação -agora adotada pela gestão Eduardo Paes, no Rio, alinhada ao PT.

No final da tarde de ontem, Haddad foi procurado pela Folha para comentar a decisão do aliado Eduardo Paes, mas não foi localizado.

O Ministério da Saúde afirmou ontem que não iria se pronunciar sobre o assunto.

Análise

Abrigar, isolar ou tratar os dependentes de drogas?

IVONE STEFANIA PONCZEK

ESPECIAL PARA A FOLHA

As notícias sobre a disseminação do uso do crack têm sido alarmantes desde sua entrada no Rio de Janeiro há cerca de seis anos.

No Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Universidade do Rio de Janeiro (Nepad-Uerj), 70% dos pacientes que chegam são usuários de crack.

Várias iniciativas polêmicas têm sido tomadas visando esvaziar as cracolândias, levando suas populações para abrigos e encaminhando menores para internação compulsória.

Na área da saúde mental, tal medida ficou identificada com prisão, isolamento, tortura e maus-tratos, que realmente aconteciam antes da reforma psiquiátrica.

O uso de drogas foi recentemente descriminalizado e a identificação vinculando internação a punição ficou muito forte. Urge desmontar esta associação que impede que os usuários procurem e aceitem ajuda.

Fala-se da internação compulsória, mas onde seria esta internação, mesmo que não fosse compulsória? Quais equipes iriam cuidar destes pacientes? Abrigar não é tratar!

Não há quase locais para internação de adolescentes no Rio, nem equipes capacitadas para acolhê-los e efetivamente tratá-los.

Se houvesse, poderia transformar a internação compulsória no direito de tratamento que a Constituição garante: ``saúde é um direito de todos e um dever do Estado``. Tal mudança de enfoque é fundamental e faz toda a diferença.

O tratamento para dependentes de droga requer uma equipe interdisciplinar de saúde capacitada para as especificidades desse atendimento.

A internação deve ser pautada em rigorosos critérios de elegibilidade, tais como risco de vida ou de terceiros, descontrole no uso de drogas ou pedido espontâneo de ajuda, etc. Não há ``pacotes de tratamento`` que ignorem a singularidade do sujeito.

`MÃES-MENININHAS`

Outrossim, a triste visão das cracolândias, que lembram as cenas do Holocausto -onde o ser humano é reduzido à sua mais degradante condição-, é mesmo chocante, não pode ficar invisível. As intervenções públicas não devem incidir apenas nas consequências, mas também nas profundas causas sociais e psicológicas.

Por que as pessoas, sobretudo as mais desamparadas, estão se drogando tanto?

O governo tem que intervir em saúde, educação, prevenção e numa distribuição de renda mais justa.

Esta vulnerável população é constituída predominantemente de jovens e crianças relegados à sua própria sorte.

Elas não brincaram de ``bandido e mocinho``, estes fazem parte do seu dia a dia. E as bonecas não são de brinquedo, são filhos de gestantes precoces que já vêm predestinados a repetir o triste destino de suas ``mães-menininhas``.

IVONE SFETANIA PONCZEK é psicanalista e diretora do Nepad (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Fonte: FELIPE WERNECK / RIO - O Estado de S.Paulo
http://www.advsaude.com.br/noticias.php?local=1&nid=9727

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...